Ed. 16 - Outubro/2026Editorial

Depois do voto, ainda precisamos aprender a conversar

Nunca foi tão fácil dizer o que pensamos. E talvez nunca tenha sido tão difícil ouvir o que o outro tem a dizer.

Vivemos com uma opinião no bolso. Basta pegar o celular, abrir uma rede social e, em poucos segundos, estamos diante de política, economia, futebol, comportamento, tragédias, memes e discussões que parecem exigir de nós uma posição imediata.

Concorda. Discorda. Compartilha. Comenta. Ataca. Defende.

E seguimos rolando a tela.

As eleições são um retrato interessante desse nosso tempo. Durante meses, candidatos apresentam propostas, campanhas disputam atenção e as redes sociais transformam cada declaração em combustível para novas discussões.

Então chega o domingo. A urna registra a escolha de cada eleitor, os votos são contados e os números mostram aquilo que uma eleição deve mostrar: pessoas diferentes fizeram escolhas diferentes.

Parece óbvio. Mas estamos desaprendendo a conviver com o óbvio.

Democracia não significa que todos pensarão igual. É exatamente o contrário. Ela existe porque pensamos diferente e precisamos encontrar uma maneira civilizada de continuar vivendo juntos depois que o voto termina.

O problema é quando deixamos de discordar de ideias e começamos a rejeitar pessoas.

Famílias brigam por política. Amigos deixam de conversar. Grupos de WhatsApp viram campos de batalha. Nas redes sociais, muitas vezes já não queremos entender o argumento do outro; queremos apenas encontrar uma frase rápida para derrotá-lo.

E existe algo curioso nisso tudo: temos acesso a mais informação do que qualquer geração anterior e, ao mesmo tempo, corremos o risco de viver cada vez mais fechados dentro das nossas próprias certezas.

Os algoritmos aprenderam nossos gostos. Sabem o que assistimos, onde paramos o dedo, o que compartilhamos e aquilo que nos irrita. Aos poucos, a tela passa a nos entregar mais daquilo que prende nossa atenção.

É confortável encontrar pessoas que concordam conosco.

Difícil é continuar respeitando quem não concorda.

Talvez esse seja um dos grandes desafios do nosso tempo.

A tecnologia continuará avançando. A inteligência artificial estará cada vez mais presente. A informação continuará chegando numa velocidade absurda. As campanhas políticas serão cada vez mais digitais. E provavelmente teremos ainda mais ferramentas para falar.

A pergunta é se teremos a mesma disposição para escutar.

Porque uma cidade não é construída apenas por quem pensa como nós.

O vizinho que votou diferente continua sendo vizinho. O comerciante continua abrindo as portas na manhã seguinte. As crianças continuam indo para a escola. O trabalhador continua acordando cedo. Os problemas da rua continuam esperando solução.

E nenhuma eleição elimina essa realidade compartilhada.

Talvez a modernidade esteja nos ensinando a fazer quase tudo mais rápido, mas existam algumas coisas que não deveriam acompanhar essa pressa.

Ouvir exige tempo.

Compreender exige esforço.

Respeitar exige maturidade.

E mudar de opinião, quando os fatos mostram que estávamos errados, exige coragem.

No dia seguinte à eleição, vencedores comemoram e derrotados seguem seus caminhos. Mas para quem vive numa comunidade, sobra uma tarefa muito maior do que escolher um candidato:

continuar convivendo.

Podemos discordar sobre Brasília, São Paulo ou sobre aquilo que acontece na esquina de casa. Podemos enxergar caminhos completamente diferentes para o futuro.

Só não podemos permitir que a necessidade de estar certo seja maior do que a capacidade de viver juntos.

Porque eleições passam.

A cidade fica.